QUANDO A GENTE AMA É CLARO QUE A GENTE CUIDA1 : A IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA NO CUIDADO DO PACIENTE DIABÉTICO

Os seres humanos se organizam socialmente, formando uma rede de laços interpessoais (relações) constituindo famílias, grupos, comunidades. Pode-se dizer que esta rede é formada no mínimo por duas pessoas em interação. (CAMPOS, 2005) Neste aspecto, a família nuclear, rede natural básica na qual todos estão inseridos a partir do momento do nascimento, é a interação social primária que o ser humano vivencia.(CAMPOS, 2005)
O primeiro contato do indivíduo com o mundo é através dos pais, pois a família é onde se recebe os primeiros valores, estabelecem-se as primeiras relações afetivas, compartilham-se dúvidas, angústias e temores.(JEAMMET; REYNAUD; CONSOLI, 1982) O desenvolvimento humano se faz num ambiente “grupal”, sendo inconcebível o ser humano isoladamente, pois este necessita fundamentalmente dos outros para “reunir os próprios pedaços”. (CAMPOS, 2005)
Assim, o bebê em sua fragilidade necessita essencialmente de alguém que cuide dele para sobreviver e nascer psicologicamente. A partir daí, o agrupamento básico mãe-bebê-pai vai sendo ampliado através de círculos cada vez mais largos, a partir de familiares, vizinhos, escola, amigos. (CAMPOS, 2005)
Desta forma, cuidar é perceber a outra pessoa como ela é, e como se mostra, os gestos e falas, sua dor e limitação. Significa ainda atenção, precaução, cautela, dedicação, carinho e responsabilidade, devendo ir além dos cuidados com o corpo físico. Pois com o sofrimento físico decorrente de uma doença ou limitação, há que se levar em conta as questões emocionais, a história de vida, os sentimentos e emoções da pessoa a ser cuidada.(CAMPOS, 2005)
A vulnerabilidade que a doença geralmente causa, pode levar o indivíduo a uma regressão psicológica, retornando a um estado infantil, no qual precisa ser amado, compreendido, cuidado. Diante da doença é necessário um retorno ao ambiente familiar em busca de apoio, suporte e de um reabastecimento emocional e afetivo, pois o doente é alguém atingido em sua integridade física, psíquica, social e na autoestima.(CAMPOS, 2005) Por isto, a pessoa doente, muitas vezes, regride a uma condição infantil, fragiliza-se, fica carente em busca de segurança, proteção e orientação neste momento.(CAMPOS, 2005)
Há de se considerar que o fato de se sentir doente traz um conjunto de significados adquiridos pela vida, desde as primeiras experiências infantis, passando pelas normas, valores e crenças introjetadas, que fazem o indivíduo reagir de modo absolutamente pessoal à doença.(CAMPOS, 2005) O sujeito, às vezes, não quer apenas ser cuidado através de remédios, exames e dieta, mas também ser olhado, tocado, escutado, ter atenção. Neste aspecto, é essencial o papel da família em acolher, apoiar e compreender. (CAMPOS, 2005)
O indivíduo muitas vezes procura por cuidado e tratamento, mas não acredita na possibilidade de encontrá-lo ou por não ter condições internas suficientes para enfrentá-lo (autoestima, autoconfiança, motivação).
Diante disto, a família deve buscar fortalecer a autoestima do adoecido, através da aceitação da doença, motivando a alteração de estilo de vida que o diabético precisa: seguir um plano alimentar, praticar exercícios físicos, uso de medicação e buscar ajuda profissional.(SANTOS; ZANETTI; OTERO; SANTOS, 2005)
Todas as famílias passam por crises, situações ou momentos de dificuldade nas várias fases da vida. Também quando alguém da família adoece ocorrem mudanças para todas as pessoas envolvidas, podendo causar sofrimento.(ALVES,2004)
Frequentemente, observa-se que não só o paciente diabético sente as conseqüências de estar doente; sua família também pode, de certo modo, adoecer junto com ele. (SANTOS; ZANETTI; OTERO; SANTOS, 2005)
A doença pode ser vista como um evento catastrófico alterando o equilíbrio familiar – ruptura com a rotina, o que gera sentimentos de medo, insegurança, podendo levar inclusive a desagregação familiar.(ISMAEL,2004)
A família enquanto instituição central, pode ajudar ou não a pessoa diabética a manejar a doença e alcançar as metas do seu tratamento.(DIAS; SANTANA; SANTOS, 2006). Assim, quando alicerçada, equilibrada, afetiva e presente, transmite apoio, busca soluções viáveis, colabora com a equipe de saúde e compreende a situação dentro das possibilidades reais (famílias terapêuticas/cuidadoras).(ALVES, 2004). Já a família desestruturada, ausente, inafetiva, nos momentos de urgência/emergência (crises/internações), demonstra seu desequilíbrio emocional com cobranças incoerentes e exigências impossíveis (famílias destrutivas).(ALVES, 2004)
A participação familiar contribui para o seguimento do tratamento, serve como fonte de apoio emocional nos momentos em que o diabético se sente impotente diante dos desafios advindos da doença.
Durante o ajustamento – fase do “conviver com a doença”, ocorrem mudanças de hábitos exigida pelo tratamento, que não atinge apenas a vida do paciente, mas tem efeitos na dinâmica familiar, o que faz com que tanto o paciente quanto a família busquem significados para a doença.(SANTOS; ZANETTI; OTERO; SANTOS, 2005)
A família deve funcionar como um sistema de suporte que implica em padrões duradouros de vínculos, que contribuem de maneira para a manutenção física e psicológica do indivíduo.(JEAMMET; REYNAUD; CONSOLI, 1982)
É importante que a família busque o maior número de informações sobre o caso do familiar, tirando suas dúvidas com a equipe de saúde que cuida dele. Desta forma, a família ajudará no cuidado, como também estará mais bem preparada para agir em caso de emergências.(ISMAEL, 2004)
O comprometimento da família no cuidado do diabético exige uma nova organização familiar e aquisição de habilidades, que podem desestruturar as atividades diárias dos familiares. Porém, esta responsabilidade familiar também é positiva, pois além de intensificar as relações, o familiar se torna um parceiro no tratamento e um aliado da equipe de saúde.(DIAS; SANTANA; SANTOS, 2006)

REFERÊNCIAS:ALVES, J.G. A doença aguda e a família. In: MELLO FILHO, J.; BURD,M.(org.). Doença e família. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004, p. 245-249.

CAMPOS, E.P. Quem cuida do cuidador: uma proposta para os profissionais de saúde. Petrópolis: Vozes, 2005. p. 33-86.

DIAS, D.G., SANTANA, M.G., SANTOS, E. Percebendo o ser humano diabético frente ao cuidado humanizado. Revista Brasileira de Enfermagem, Pelotas, v. 59, n. 2, p. 168-171, mar/abr, 2006.

ISMAEL, S.M.C. A doença do paciente em UTI. In: MELLO FILHO, J.; BURD,M. (org.).Doença e família. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004, p. 250-257.

JEAMMET, P.; REYNAUD, M.; CONSOLI, S. O paciente e sua doença. In: ____. Manual de Psicologia Médica. Rio de Janeiro: Masson Josef, 1982, p. 267-289.

SANTOS, E.C.B., ZANETTI, M.L., OTERO, L.M., SANTOS, M.A. O cuidado sob a ótica do paciente diabético e de seu principal cuidador. Revista Latino-americana de Enfermagem, São Paulo, v. 13, n.3, p. 397-406, mai./jun, 2005.

1 Trecho da música Sozinho do compositor Peninha, cantada por Caetano Veloso.

Sabrine Fernandes – Psicóloga da ADJF

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